A Classe Operária Vai ao Paraíso 1971

A CLASSE OPERÁRIA VAI AO PARAÍSO É o crânio. Sim... Nós vamos comprar o Beckenbauer. 400 milhões! E nós vamos comprar o Riva. E quem lhes dará o dinheiro? Lulu, não estamos desesperados como vocês! Café! Quer? Quer café? - Como está, amor? - Amor, amor... Tudo aqui! No cérebro. No cérebro tem a direção central que decide, faz os projetos, os programas - e dá luz verde à produção. - Produção. É o indivíduo! O indivíduo entra na pista, põe-se em movimento. Braços, pernas, boca, língua. Tudo! Põe-se em movimento e, até que não agarra o alimento, que é a matéria-prima. O que você está dizendo? Um: o indivíduo trabalha para comer. Que novidade! A comida desce e aqui tem uma máquina que amassa. E está pronto para sair. Como numa fábrica. - O indivíduo é como uma fábrica! - E aí? - Fábrica de merda! - Oh! Merda! Merda! Merda! Que linguajar logo de manhã! - Não, mas ouça. Ouça! - Pare com isso! - Desculpe, pense! - Pense você! Pense só se tivesse preço! Cada um numa boa, com sua renda assegurada! - Fique quieto! - Mas não... - nem sabemos onde colocá-la! - Feche essa boca suja! Polui as águas! - Fede! - Fique calado! Até o Artur fará com que a coma quando for grande. Talvez com a desculpa que faz bem ao câncer. Artur! - Não mexa com o menino! - O menino, o menino! Por acaso, ele é uma criança? É uma fraude! Ele é uma fraude! Um marciano, um lunático, um erótico... Operários! Operárias! Eu falo em nome... de seus companheiros estudantes! São 8 da manhã! Logo, quando saírem, já estará escuro! Para vocês, a luz do sol, hoje não brilhará! Ganharão por tarefa! Oito horas de trabalho! Sairão velhos, vazios, convencidos de terem ganho seu dia e, em vez disso, terão sido roubados! Sim! Roubados de 8 horas de suas vidas! Não é desse jeito que ganharão mais, mas com o seu legítimo salário! - Por tarefa ganha-se... - Quem mandou você? Por que não volta para a universidade? Vá estudar! Por 12.000 liras a mais, os patrões ganham 100! Operários! Estão entrando na prisão! Depois de 8 horas de trabalhos forçados, sairão e estará escuro! Para vocês, o sol hoje, a luz do dia não brilhará! Operários! Para enfrentar a união dos patrões e dos sindicados propomos a formação de comitês unitários de base, de aliança revolucionária entre operários e estudantes! - Entre operários e estudantes - Entre operários e estudantes! Mais dinheiro e menos trabalho! Mais dinheiro e menos trabalho! Mais dinheiro e menos trabalho! Trabalhadores, bom dia. A direção ambiental deseja-Ihes bom trabalho. No seu interesse, tratem a máquina que lhes foi atribuída com amor. Cuidem de sua manutenção. As medidas de segurança sugeridas pela empresa garantem sua incolumidade. Sua saúde depende da sua relação com a máquina. Respeitem suas exigências e não esqueçam que a máquina requer mais atenção, é igual à produção. Bom trabalho. Vocês aí! Venham! Entrem! Entrem! Lulu, são 2 novos admitidos. Quero que sejam titulares depois de amanhã. Entendeu? Vamos! Tarcisio Menga de Manfredonia. - O quê? - É como me chamo! E me importa saber como você se chama? Viu? Perdi o ritmo! Entre uma fala e outra são 30 liras a menos! - Lamento, não sabia. - Silêncio. Esta é uma função que até um macaco pode fazer. Portanto, você também pode. Perdi o ritmo. Em pé! - Assim produz só a metade! - Sofro da próstata. Como superior, vou multá-lo se não ficar de pé! Mas ficando de pé terei que ir mijar toda hora! Não dá para mijar todo o tempo! O que quer de mim? Por que não usa a seguridade social? Mas que seguridade social! Eu trabalho ou mijo. A próstata é assim. Já o avisei 200 vezes! Deveria ficar contente que, de manhã, a próstata funciona bem! Vamos! Está perdendo 2 segundos na volta! Por que não experimenta você, almofadinha? Não cortaram o cabelo? Então, segundo as normas de segurança, como a mão-de-obra feminina, - vão precisar usar touca. - Vá se danar! Operários! Os sindicatos convocaram uma assembleia! Fiquem unidos para pedir a inversão da linha política! Tudo, já! Mais dinheiro e menos trabalho! Mas quem paga esses aí? Todos unidos contra os sindicatos! Quem paga esse pessoal? Sabem de tudo. Estão tentando uma manobra separatista. - E organizada. - Para mim, aqui há espiões. Mais dinheiro e menos trabalho! Mais dinheiro e menos trabalho! Vamos avisar o sindicato. Achou que eu era uma instituição de caridade. Tarcisio Menga, de Manfredonia. Tarcisio Menga, e o outro? - Diga seu nome! - Salvatore Quaranta, de Lecce. Ludovico Massa, dito Lulu, de Lombardia, perto da Suíça. E esta é a Adalgisa Stacchia, de Basso Ticino. Virgem. Sentem-se os dois aí. Se quiserem, peguem também a minha comida. Peguem, pois não estou com fome. Tenho um buraco aqui dentro! Desculpe, Sr. Massa, uma curiosidade mas, como consegue manter aqueles tempos? É que eu, na fábrica, me chateio, muito mesmo. Então, trabalho! Trabalho! O que mais posso fazer? Ouça o conceito. A vida, uma meta: a faixa. Todos na pista. Aqui dentro corremos todos. Eu sou um pequeno campeão aqui dentro. Ela sabe, não é verdade? É verdade. E depois há também os camponeses, como este da Sicília oriental, que são todos pendulares. De manhã, chegam cansados e eu os ultrapasso no ritmo. Eu consegui ganhar 25 mil liras em um mês, por tarefa! 25 notas, mas pedalando! Pedalando! Porque eu me concentro. Sou concentrado! Sou concentrado! Tenho uma técnica para me concentrar. Ela sabe. Eu me concentro e penso numa bunda. A bunda dela. Aqui não há nada mais para fazer. Já que temos de trabalhar, trabalhemos! Sem tanta enrolação. Entendeu? Trabalhe sem tanta enrolação! Sim! Sim, sim! Sim, entendi, mas você... Quantos anos você tem? 31! Estou na fábrica há 15 anos! Peguei 2 intoxicações por tinta, tenho um buraco aqui dentro, tive uma úlcera. Prontos! Lulu! Lulu! Precisamos rever os tempos de produção. Prontos! Prontos. Precisamos controlar os tempos de trabalho. Chefe, vou fumar um cigarro. - Mostre. - Rendimento muito baixo. Permite? -14. -35. -12. -28. -12. -30. -8. -27. -12. -27. -12. -30. -10. -32. -10. -30. Pare! Quer um cigarro? Vai render mais! A produção desta máquina precisa aumentar de 115 a 300 peças/hora, entendeu? Vamos para a próxima. É só uma questão de ritmo, vamos! Você é um cornudo! Pense! Pense! Tem cada um, minha nossa! Se parar a máquina, vai perder tempo! Você! É você que tem medo. Pegando as peças em movimento - poupa 3 segundos. -30. - Aqui! -45. Peças em movimento, 3 segundos. -30. - O medo prejudica. 48. 3, 3 e 3 são 9 segundos. - É só contar e está pronto. -30. -48. - Pare! Ouça, Lulu. Você não vai morrer na sua cama! Vai morrer aqui, sobre a máquina! É indiferente. - Eu fumo um cigarro, chefe. - Sim. Bom, esta máquina tem de aumentar a produção - de 200 a 250 peças/hora. - É indiferente. Chefe! Na sua opinião, a partir de quando entram em vigor os novos tempos? - A partir de agora. - Quem disse? As máquinas disseram. E eu decido. Mas nós não concordamos. - Não concordamos mesmo! - E antes de fixar os novos tempos, precisa nos dizer quanto vamos receber por isso. Antes se trabalha, depois a direção decide. Não, não! Que direção! Isso precisa ser discutido já! Se querem aumentar o rendimento precisam aumentar também o salário! Porém, os que largaram o posto de trabalho estão multados! Ouviram? Ouça, você! Nós aqui não estamos na prisão! Precisa aprender a discutir conosco! É preciso discutir com nós, operários. Estamos presos, por acaso? Estão todos multados! Ao trabalho! Mas o que é isso! Está avançando com as mãos? - Para o seu posto! - Você vai acabar mal! - Seu puxa-saco! - Não inventei o sistema! Agora sou o inventor do sistema! Carneiros! São todos carneirinhos! Falam, falam... mas na hora do vamos ver, põem o rabo entre as pernas! Não estão nem aí! Todos eles têm um pedaço de terra! Eu não tenho nada. Tenho força e trabalho. Só isso! Mas levo a melhor. Concentro-me. Eu penso na bunda da Adalgisa, vejam só! Que bunda boa a da Adalgisa! É só olhar e manter o ritmo! Jovens, olhem e aprendam! Eu já estou concentrado! Eu já estou em outro mundo! Pensem só na peça, mesmo que não sirva para nada, cada peça é um buraco! Cada buraco é uma peça! É só não cair no buraco! Para não cair neste buraco, pensem na bunda da Adalgisa! O conceito está claro? Como expliquei no refeitório, é só uma questão de técnica. Eu me concentro e penso na bunda da Adalgisa. E aí vou eu, uma peça, uma bunda, uma peça, uma bunda, uma peça, uma bunda, uma peça, uma bunda. Você acha que sou um puxa-saco? Comigo não. Quem diz essas coisas? Puxa-saco? Puxa-saco é quem bajula o patrão. Mas quem conhece o patrão? Uma fábrica não é como um salão de cabeleireiro. Se é por isso, o meu salão é mais limpo que a sua fábrica. Sim, mas o patrão está lá e se for preciso vai para cima dele! Uma fábrica não tem patrão. Tem a sociedade. Suíça... América... Li... Lichtenstein. Lichtenstein. Está mal outra vez? Reforma-se, reforma-se... A úlcera está voltando. Esta noite é a úlcera. Uma noite é a dor de cabeça, na outra, dor nas costas. Só desculpas! Não aguento mais! Agora é você que tem de me dizer quando... E por que não? Nunca tem vontade! Há três meses que tomo pílula para nada. Não aguento mais! Entendeu? - Pare com isso! - Pare com isso! Não, sou eu que digo para você parar! - Dê um corte! - Sim, corte, corte. Quer cortar o quê? Aonde vai? Não vá para a sala! Não vou desarrumar! Não vou desarrumar! Disse para não ir para a sala. Fique aqui! - Por quê? Lá também tem uma TV! - Se quer ver televisão, veja aqui! O que está resmungando agora? É como fazer amor com carne de conserva. Isso! Mas pelo menos comece tentando. - Você seria minha cerveja. - Só? Tudo postiço. Sim, sim. Cabelo postiço. Coitadinho. É tudo verdadeiro. Não. Parece tudo postiço. - Os cabelos postiços. - Meus cabelos são postiços? - Sim! E as tetas postiças! - Não. É tudo meu, querido! - Unhas postiças! - É tudo meu. Não arrume desculpas! Vá! Vá se consultar, que é melhor. Vá ao médico! Mas que desculpa! Que desculpa! - O que eu sou, uma máquina? - Ah! Não me lembro mais. Sabe de uma coisa? Só tenho vontade de manhã. De manhã. À noite, não. De manhã, quando entro na fábrica, daria para fazer três vezes. Mas você não está lá. Está no salão. Salão, que é moleza. À noite, não. Não sei, deve ser o cansaço. Quer entender de uma vez por todas que para ganhar 20 notas a mais por mês eu me dano? E me atacam, me cospem, me contestam. Só eu sei como sofro. Como um cão! Como um cão! Vamos, vamos. Não fique assim. Amor. A palavra dela. - A palavra dela! - Venha cá. Vamos, amor. Sossegue. Peça, bunda. Peça, bunda. Peça, bunda. Operários da BAN! Os três sindicatos unidos chamam todos à luta! Contra os ricos! Contra as qualificações! À luta pela saúde, para ganhar mais dinheiro! Para terem mais tempo à disposição para ficarem com seus filhos e suas mulheres! Quando faziam 1000 peças por dia davam-Ihes 300 liras pela produção. Agora, fazem 3000, com os novos tempos, e o salário continua sendo o mesmo. Isso quer dizer que a BAN aumentou em bilhões seus lucros, enquanto para vocês os preços só aumentam! Tudo o que se paga é salgado! Só o trabalho a mais é feito gratuitamente! O ganho precisa ser maior! Mais peças, mais dinheiro! Menos peças, mais dinheiro, menos trabalho! Operários! Operários! Imponham aos sindicatos uma plataforma revolucionária! Não vamos entrar em acordo! Vamos abolir o sistema! A fábrica é uma prisão! E da prisão se foge! Já! Ou então arrebentem tudo! Finquemos nossos pés cada vez mais no chão! O nosso objetivo imediato é dividir as tarefas segundo as qualificações de cada um! Vamos mostrar nossa força aos patrões! Esta é a voz dos três sindicatos unidos! Tudo hoje e não amanhã! Tudo hoje e não amanhã! Tudo hoje e não amanhã! Unidade sindical! Unidade sindical! Unidade sindical! Vai precisar dar as 10 mil liras da semana porque estamos precisando. Não, não! Eu não sou nada. Não dou nada! - O que é isso? - Pense. Eu vivo com aquela porca e mantenho o filho dela e você vive com minha mulher e mantém meu filho. Não, senhor! Porque o Armandinho é seu filho mas o garoto que está na sua casa nem seu parente é! Aliás, deveria ser criado pelo pai! Mas não! O pai não quer saber! Ele se recusa! É empregado, entendeu? Não posso pegar o garoto e jogá-lo fora! Ah! Pouco me importa, se vira! Vou me virar, sim! Não dou nada! Ei! Estava mesmo pensando em você! O que é isso? Por que não confessa que é mentira o que me contou, que ainda não conhece o homem? Vamos, que há alguém no campo indo e vindo, hein? Mas você pensa sempre na mesma coisa? Por quê? Deveria pensar no quê? - No paraíso? - E por que não? - Aqui está o paraíso! - Quieto! - Veja! Aqui está o paraíso! - Massa! Pronto! Está expiando seus pecados? Vou te arrebentar! Vá devagar, devagar! Nós lhe daremos o dinheiro que perder! Vamos fazer uma coleta! Massa, telefone para você! É o Conselho de Administração! Querem que limpe as privadas! Queria quebrar suas colunas por me xingarem! Quebrar suas colunas! Você é que vai quebrar a sua! Suas colunas! Vão se danar todos, sou eu que digo. Massa! A vida de um homem é longa. Pense na velhice. Pense quando tiver a coluna quebrada, sim, na artrite, no hospital, com broncopenumonia, meio cego, surdo e sem um amigo. Vou quebrar a sua cabeça. Vou quebrá-lo. Vou quebrar sua cabeça. Vou quebrar sua cabeça. Vou quebrar sua cabeça. Vou arrebentar tudo. Vou fazer saltar suas entranhas! Vou quebrar a coluna. Vou quebrar a coluna. Vai ver só! Vagabunda! Vagabunda! Vagabunda! Machuquei a mão! O que aconteceu? Não é nada. - Não, não é nada! - O que aconteceu? O dedo! - O dedo! - Não! Que dedo? - Mostre! - Não! Não é nada! Massa, mostre! O Massa se feriu! Suspendam o trabalho! Parados! Stop! Houve um acidente! Greve! Esses são os presentes que o sistema nos dá! Greve! Todos unidos! Greve! É um arranhão, não é nada! Calma! Calma! Calma! Calma! Sem perder a cabeça! Calma! Por que está voltando para trás, agora? Não estou desistindo! Quero refletir! Entende? Não é assim! Há outros meios! - Quais! Quais meios? - Como quais? A assembleia! Assembleia! Este é o resultado do sistema! Vendidos! Vendidos! Vocês cortam nossos tempos e nós cortamos nossos dedos! Vamos convocar a assembleia. Assembleia! Assembleia! Vim visitar meu filho. Entre, entre. - Está lá dentro? - Sim, lá dentro. Olá. Vim ver o Armando. Soube da desgraça? O que aconteceu? Como? Ele não disse que eu perdi o dedo? Bom dia. Boa tarde. Também não sabiam que perdi o dedo? Não soubemos de nada. E você, Armando, o que está fazendo? Olá, papai. Estou desenhando. Ah! Desenhando. Você também não sabia que o papai perdeu o dedo? Mostre! Olhe. Não tem mais dedo. - Maldição! - Então ele não disse nada? Não disse nada para não preocupá-lo. - Tem razão. - Que discurso é esse? Alguém perde o dedo e gostaria que pelo menos o filho ficasse sabendo! É o mínimo, não? O dedo do pai, para um filho, é sempre o dedo do pai! Sim! Mas deveria ter mais cuidados com ele! Um pai deveria dar dinheiro ao filho com ou sem dedos. A não ser que alguém tenha interesse em distorcer a verdade. Eu vou sair. Para onde vai, papai? Tenho um assunto para resolver! Volte logo, por favor. Não deveria chamá-lo de tio? Fala assim de maneira espontânea! Espontânea? Lavagem cerebral! Como se eu fosse burro! Sou burro, eu! Para ser tratado de papai tem de pagar. Agora, o pai é ele! Vovó! Fique calada! Ginevra, posso falar com você? Você, fique aqui. Fique aqui, meu bem. - Não comece, hein? - Quem é? - Não vou fazer nada. Quem é o pai? - Fique calmo. - Fique quieto. - O que fiz para vocês? Tudo! - O que fiz para vocês? - Não me toque! - O que fiz para vocês? - Não me toque, ouviu? - O que fiz para vocês? - Não faça como sempre faz! Não me toque! Não me toque! Deixe-me! Deixe-me em paz! Deixe-me em paz! Deixe-me, não quero mais! Deixe-me! Deixe-me! Vá, vá! Você é louco! Como vai o dedo, amor? Bem. Está doendo hoje, amor? Ontem à noite, esteve na sala, amor? Já lhe disse tantas vezes para não ir à sala. Estava tudo bagunçado. Encontrei até cinza no chão e eu lá, limpando. Ontem, dei por falta de mil liras, amor. Cuidado com os talheres! Alinhados! Alinhados! Quem pegou as mil liras? - É esse aí que rouba! - Esse aí, não! Foi você que pegou para dar para sua mulher? Pode confessar que eu não me ofendo. Mas podia ter pedido. Não achei mais o dinheiro. De pé, a pimenta. De pé! O Artur viu. - Arrume as coisas! - Não mexa com o garoto! Foi você, amor? Diga a verdade. Vou enfiá-las aí dentro! Viu o Militina? Viu o Militina? - Viu o Militina? - Não. Quantos anos você tem? - Quem viu o Militina? - Quem viu o Militina? Quem viu o Militina? Quem viu o Militina? Um repetidor! Quem viu o Militar? Quem viu o Militar? Quem viu o Militina? Quem viu o Militina? Olá, Militina. Vim vê-lo. Soube que perdi um dedo? Trouxe-lhe também o livrinho que tinha me pedido. E ainda o hollerith que diz, - horas normais, 17.400 liras. - Isso, horas normais. - Por tarefa... - Um minuto, vou escrever. - Escreva. - 400. Por tarefa realizada, 9.918. Viu que perdi o dedo? Sim. Olhe aqui: chimpanzé no zoológico de Estocolmo. O chimpanzé acredita mesmo que é um homem. E engenheiro. Pobre animal. Então, vamos. Vamos controlar. - Feriados, 1600. -1.600. - Fingindo que escreve? - Não, não. Escrevi 17.400. Depois vai me dizer para que serve isso. Erro. Erro! Ouça. Ouça. O quê? Como é a comida? Como no refeitório da BAN. É igual, como na fábrica. Só que de noite não me deixam sair. - Mas aonde quer ir? - Ao café. Bem, ao café... Ao café, com os companheiros, aliás, os companheiros continuam falando de mim? Continuam, sim. Você ainda é um simbolo. - Não acredito. - Sim. Eu sou louco, mas não sou burro. Continuam falando, ainda é um simbolo. Então se falam, falam mal. Falam mal porque tem sempre um porém. Que porém é esse? Esse porém significa que falam bem, mas a certo ponto, quando o discurso acaba, lhe atribuem um porém e, então, começam a destruir. - Escute uma coisa. - O quê? Promete não se enfurecer como da outra vez? Por que deveria? - Eu peço uma coisa. - Fale, fale! - Escute. - O quê? Como é que, enfim, como percebeu que estava ficando louco? São os outros que decidem quando alguém tem de ficar louco, porém, para dizer a verdade, eu cheguei antes, enganei-os. Eu já tinha uma suspeita e a suspeita é como uma raposa ferina, ágil, devassa, covarde, reacionária. De vez em quando, percebia coisas estranhas. Que coisas estranhas? Na mesa, quando vamos comer, os talheres têm de ficar todos alinhados em fila, sabe? Como os soldados. E eu estava na mesa, comia e, nesse momento, sonhava que ainda estava - na fábrica. - Eu já sabia. Já sabia. Mas você gostaria de saber o que fabricamos - na fábrica? - Isso eu sei. - Para que servem as peças... - Eu sei. que fabricam aos milhões? Não, não. Eu sei. Eu sei. Eu faço peças que servem para um motor. O motor... Esse motor depois é colocado em outra máquina mas que não está lá. Não está lá. - Ah, não está lá? - Não. Imagine que eu, um dia, encontrei o engenheiro, peguei-o pelo colarinho e lhe perguntei: "Vai me dizer o que se produz nesta fábrica, para que servem essas peças, senão eu te mato! Eu te mato!" - Vou chamar o enfermeiro! - Não! Então, se acalme. Estamos conversando, para que ficar nervoso assim? Eu converso mas, se não o tivessem levado embora, eu o teria estrangulado mesmo, mas isso... isso não é loucura porque um homem... um homem tem o direito de saber o que faz. Para que serve. Sim ou não? - Estou certo? - Sim. Sim. Você os vê? Vê todos aqueles? Eles eram operários, camponeses, trabalhadores braçais, pedreiros, policiais, empregados do cadastro, pobres diabos, contadores, zeladores, motoristas, operários de 1a, 2a, de 3a categoria, mesmo de 6a, 8a, 16a. Não colocam os loucos ricos aqui. Eles estão escondidos nas clínicas particulares. Dá para entender! Imagina se eles soubessem que até os ricos ficam loucos! Chorariam por isso. Esses daí são loucos! Deixe para lá, não se misture! Lulu, é o dinheiro! Começa tudo daí! Nós fazemos parte do mesmo sistema, patrões e escravos. Do mesmo sistema de dinheiro. Nós ficamos loucos porque temos pouco e eles ficam loucos porque têm demais. E assim, neste inferno, neste planeta cheio de hospitais, manicômios, cemitérios, de fábricas, de quartéis, de ônibus, o cérebro pouco a pouco some. Faz greve. Faz greve, greve, greve. Despeço-me. - Bem. Boa permanência. - Faz greve, greve, greve. Ei! Aonde vai? - Aonde vai? - Vou embora. Na verdade, sou eu que tenho de ir embora. Ah! Sim, é verdade, mas eu me engano sempre. Adeus. Lulu! Lulu! Quando for internado, traga as armas. Companheiros! A direção suspendeu 6 operários do trabalho! Após o tumulto, devido à indignação de todos pelo acidente do companheiro Massa, vítima dos ritmos de trabalho. Mas nós vamos ser claros com os dirigentes e os patrões da BAN. Que se eles não desistirem das suspensões, nós, unidos, digo: unidos, levaremos a luta para um plano mais duro! Operários! À violência patronal se responde com a violência do operariado! À violência patronal se responde com a unidade sindical! A unidade de todos os trabalhadores! Não reajam a provocações! - Quem mandou esses aí? - Quem dá ouvidos para eles? Unidade sindical! Unidade sindical! Unidade sindical! Unidade sindical! Abaixo os servos e os patrões! Abaixo os servos e os patrões! Abaixo os servos e os patrões! Calem-se um momento! Ei! Calem-se um momento! Sempre com essa coisa no ouvido! Quero pedir uma informação. Quem foi suspenso? - Eu, em primeiro lugar. - Você à parte. - Também fui suspenso. - Sim, sei. De Simoni, De Antoni, Telori, Magloglia. E todos eles foram heróis pelo meu dedo? Sim, por você, por você. Pelo seu dedo. Não pelo seu dedo! Pela luta da classe! Os patrões são prepotentes! E ele, por que não foi suspenso? - Porque é esperto. - Porque sei me virar. Patrões! Burgueses! Só por mais alguns meses! Patrões! Burgueses! Só por mais alguns meses! Unidade Sindical! Unidade Sindical! Trabalhadores, bom dia. A direção ambiental Ihes deseja bom trabalho. No seu interesse, tratem a máquina que Ihes foi atribuída com amor. Cuidem de sua manutenção. As medidas de segurança sugeridas pela empresa garantem sua incolumidade. Sua saúde depende da sua relação com a máquina. Respeitem suas exigências e não esqueçam que máquina mais atenção é igual produção. Bom trabalho. Olá, você. E aí? Como está? Olá, Lulu. Finalmente. Perdi o dedo. Desde que lhe aconteceu essa desgraça, a produção diminuiu 7%. A produção caiu 7%! 7%! É preciso fazer como antes! É preciso reencontrar o espírito de colaboração entre vocês, que havia feito da nossa indústria uma preciosidade! Uma preciosidade, em que se compunham os interesses dos operários e os do capital. Eu digo isso por vocês. Eu sou empregado como vocês. O que eu ganho com isso? Vamos destruir tudo por uma discussão boba sobre os ritmos de produção? Não, não, não! E ainda não! Eu Ihes garanto que não vamos voltar atrás! Por aqueles 4 desgraçados que tiramos da pocilga, não vamos voltar atrás. Mesmo arriscando ter de pagar quem estou pensando. Você está de acordo? Lulu, você está conosco, não está? A saúde acima de tudo. Ok. E bom trabalho! Ao trabalho! Ao trabalho! Vamos com isso! Ao trabalho! Amor, amor, amor Está abaixo da norma! Num ritmo inferior a 80! Desculpe, senhor cronometrista, mas me regulo segundo a minha velocidade de masturbação, entendeu? - Amor, amor, amor - Trabalhe, camponês. Se não quiser voltar para os porcos! Amor, belo amor Que me traiu Teresa, você veio Eu a avisei Amor, amor, amor O amor é um corno De dia, sou enganado À noite, durmo Lulu, como está o dedo? Está no campo santo. Amor, amor, amor Força! Trabalhem! Trabalhem! Faça o que o chefe manda! Venha me controlar. Lulu, o que está fazendo? O rendimento é baixíssimo! Precisa se esforçar, para não perder a percentagem. Amor, amor, amor Ficou um pouco enferrujado nestes feriados? Só se foi o pinto! Olhe aqui! Olhe aqui! Olhe só para isto! Veja que performance! Olhe aqui, olhe aqui, olhe aqui! Olhe aqui! Pensou no quê, almofadinha? Não é que não posso. Não tenho vontade. Tenho outras preocupações na cabeça. Os tempos que você está fazendo são de criança! De criança? Sim, de crianças que vão para a escola. Essa aí é uma fraude! Por acaso, não somos tratados como as crianças que vão à escolinha? Aliás, para o reformatório! Cuidado, se continuar assim, vai perder a percentagem, e se ficar aquém das normas, vou ter de multá-lo! Amor, amor É verdade, a multa! A multa! Tinha me esquecido da multa! A multa! Porque eles podem multar! Está bem! Que venha essa multa! Mas depois vão ter de restituir tudo o que me roubaram quando trabalhava, segundo Estacanovich! Vão ter de repor tudo! Até o dedo! ASSISTENTE SOCIAL O que é isto? Cachimbo. E isto? Trompete. E isto? Calendário. Aquilo é um compasso e aquilo um vaso de flores. Estes lápis, sempre em desordem. Por que está rindo? Porque estou contente. Estou contente. Como vai o dedo? O dedo não existe mais. Sente-se deficiente? O que pode ser para mim um dedo a mais ou a menos? Pense bem. O que lhe lembra este dedo? Uma ave. Não, um pinto. Está aludindo ao membro masculino? Esse mesmo. Para sermos consequentes, então, você, sem esse dedo, é como se estivesse castrado. Ao contrário, após o acidente, meu ritmo aumentou e chego a fazer três vezes por noite. Ouça, brincadeiras à parte... O que pensa de mim? O que lhe disseram? Eu sempre gostei de mulheres. Sou normal. Sou como todos os outros. Separei-me de minha mulher por questões de caráter. Com a Lidia, a cabeleireira com a qual vivo, é como se fosse sempre a primeira vez. Nós nos queremos bem. Ela é uma mulher que faria qualquer coisa por mim e conseguimos fazer até uma pequena poupança. Gosta de dinheiro? Claro. Porém, após o acidente e, talvez por isso mesmo, dá mostras de distúrbios em relação ao trabalho e, portanto, ao dinheiro. Por quê? Você sabe o porquê. Vermelho, deixe-se revistar. - Mas eu não roubo. - Vamos, vamos, que acusou. Revista, Massa. Vamos! Abaixe as mãos! Tire as mãos de cima de mim! Operário! Não se deixe revistar pelo patrão que o persegue em todos os lugares. O seu corpo, sempre revistado, como a sua mente! O que está dizendo? O que está dizendo? Que os ladrões são vocês! Mas os ladrões são eles! Precisamos revistar os bancos deles, onde escondem seus ganhos, fruto do aproveitamento, fruto do seu sangue! Operários! Com sua vida, com seu trabalho, não deixem que revistem seus corpos e suas mentes! E agora, onde vai passar seu tempo livre? E fazendo o quê? Ficando na frente da TV? Vendo os outros? Ou falando de futebol? O caso da Juventus está correndo. Precisa telefonar ao Agnelli? Tomar decisões? Tire as mãos do carro! Ou o tempo passa, sua mulher vai voltar e o que lhe diz? - Ou vai arrumar outro trabalho? - Tire as mãos do carro! Porque o dinheiro do patrão nunca é suficiente. - Porque são poucos. - Chega! - Nunca são suficientes! - Chega! Para mim, chega! Calma, Lulu! Calma! Por que está contra mim? Ataque os dirigentes! Se é tão forte, revolte-se contra os dirigentes! O Picchia é um companheiro! Amanhã, quando for à fábrica... Bata, então, se tem coragem! Que companheiro! Vamos, de pé! Vamos! Eu arrebentaria você! Aprenda a deixar para lá! Volte para o papai! Você vai acabar mal! Una-se a nós! Não banque o motorista! Por quê? Não pode falar? Esse é o escravo que vai para casa! Lulu, isto por acaso é vida? É vida? Agora chega! Vá embora! Deixe-o passar. Escravo! Escravo! Escravo! Tantas horas de trabalho e, no domingo, o jogo! Tenha vergonha! Não sabe fazer mais nada! Só sabe fazer isso! É escravo e nada mais. Entendeu? Aqui, até agora só se falou do aspecto negativo do sistema. Mas companheiros, para vocês essas 20.000 liras não contam? Para mim, esse valor parece importante, quero dizer, quando recebem o salário e acham 20 mil liras a mais, não é bom? Não aguentamos mais ouvir falar bem do sistema! Porém, nos exploram! Estamos cansados de suportar! Vamos votar! Eu sou pelo sistema, mas contestado ao máximo! Ou seja, até obter o máximo possivel! Ouçam! Ouçam! Repito, para quem não tenha entendido ou tenha chegado neste momento. Quem é pela abolição imediata do sistema, levante a mão! 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12. -12 votos. -12 votos! Um momento! Um momento! Servos! Servos! Servos! E agora passemos à segunda votação. Quem é a favor de uma luta articulada que leve à negociação do sistema através de um delegado de linha toda a vez que for necessário, levante a mão. Aí está! E agora, se não for suficiente, vamos fazer outra votação! Esperem! Ouçam! Ouçam! Por favor! Vou propor uma coisa! Isto: quem é favor da greve por tempo indeterminado, levante a mão! 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12. Agora, vamos votar outra proposta! Quem é favor de uma ação articulada, a partir de segunda-feira, e de fazer 2 horas de greve por dia, levante a mão! Esta é a resposta às provocações porque é a maioria que decide democraticamente! Você, lá no fundo! As assembleias, nós as conquistamos lutando e, agora, vocês estão sabotando-as! Basisti! Não, deixem-no falar! Deixem que ele fale! Foram vocês! Foi por culpa de vocês, desse seu sistema que eu adoeci! Vocês nem se lembram dos tanques lá embaixo, - da umidade! - Tem razão! - Experimentem! - Aqui o dedo! O dedo! - Agora eu vou falar! - Vá! Vá! Eu não sei como chamá-los. Senhores trabalhadores, operários, companheiros, senhores companheiros, não sei. Pare com isso! Venha cá! Venha falar no microfone! - Venha falar no microfone! - Venha aqui! Está bem, vou até lá um momento. O estudante, o estudante lá fora disse que entramos aqui de dia, quando ainda está escuro, e saímos de noite quando já está escuro. Que vida é essa? Isto é um pró-forma. Então eu disse, já que estamos aqui, por que não dobramos esse sistema? Assim trabalhamos até de domingo! Ou vimos também à noite! Aliás, trazemos até as crianças, as mulheres! Podemos colocar as crianças para trabalhar, as mulheres para nos alimentar e podemos seguir trabalhando sem parar! Trabalhando! Trabalhando! Trabalhando! Trabalhando por essas vis 4 liras até a morte! E assim, deste inferno, sempre sem parar, passamos para o outro, que é a mesma coisa. Ouça, Massa, já que está falando tanto, onde você estava quando nós, companheiros do sindicato, fundamos o sindicato aqui da fábrica? Da BAN. - Onde você estava? Responda! - Onde você estava? Onde você estava? Trabalhava por tarefa! Seguia a política dos sindicatos! Trabalhava para a produtividade. Eu incrementava! Incrementava! É verdade! Está certo! E no que me tornei agora? Tornei-me um animal, um animal. Sim, você é um animal, nós não! O estudante, o estudante, diz, sem errar o conceito, diz isto: que nós somos como as máquinas. Entenderam? E eu sou uma máquina! Eu sou uma roldana. Eu sou uma rosca. Eu sou um parafuso. Eu sou uma correia de transmissão! Eu sou uma bomba! Aliás, a bomba está estragada! Não funciona mais. E agora não pode mais ser reparada. E eu tenho esta proposta. Que deixemos, imediatamente, o trabalho, todos nós! E quem não deixar o trabalho agora é um fura-greve! É um sem vergonha! Massa! Espere! Ouça! A ruptura da unidade sindical que conquistamos a tanto custo faz parte do jogo político dos patrões! Precisamos ficar todos unidos se queremos vencer! Uma política extremista, aventureira, se resolveria fazendo o jogo da direita! Por isso, procurem entender! Companheiro Massa! Todos devem tentar entender! Precisamos ficar unidos! Unidos! Olhem! Olhem os barbudos como correm! Estão esperando os operários! Bela vida de merda, a dos operários! Sempre os operários! Vão se divertir, vocês que têm grana! Por que esperar os operários? Olhem como correm! Como foi? Ficamos aqui. Disse o que tinha a dizer. Dei também os conceitos. Ainda tem gente entrando! E esses se borraram de medo! Vamos! Venham para o outro lado. Vendidos! Fascistas! Covardes! Covarde! Servo dos imperialistas! Que horas acaba este turno? - Agora. - Vamos! Para o portão! Para o portão! Olhe para isso! Olhe só, não tem nada. Este é um lugar onde eu trabalhei com tintas. Agora está vazio. O patrão está preso por falência fraudulenta. - Vamos parar aqui. - Mas estou com frio! Ligamos o ar quente. Diga, é a primeira vez, de verdade? - Bem, vai ver. - Não percamos tempo. Vamos tirar a roupa e jogá-la lá atrás. Isso, que estamos bem aqui. Só nos. Diga, como se faz? Estou com medo! Medo? Vamos! - Vai me machucar? - Não! Guie-se por mim. - Não me machuque. - Não! Não farei nada de mau. Se me sentir mal, vai me ajudar? - As botas. - Lá para trás. Eu estou pronta. Espere que eu ainda não tirei a roupa. As calças, preciso tirar tudo. Tem um barzinho aqui. Olhe que serviço. Eu sou abstêmia. Não bebo. Não! Eu não... Eu tenho medo. Mas que medo. Engula. Engula. - Por que está tirando as calças? - Por isso, vou tirar até as cuecas. - As cuecas não. - Tiro tudo. - Tudo. Tudo. - Mas não, espere. - Fique com alguma coisa. - Sim, fico com as calcinhas. - Não, eu tiro tudo. - Eu quero um beijo! É melhor tirar o reloginho. Não, o reloginho, não. Não quero. Sabe-se lá o que vai acontecer comigo. Nada disso. Nada disso. Não vai lhe acontecer nada. Vai lhe fazer bem. Venha para cima de mim. Agora, rodando, vai ter de se levantar. - Vou bater com a cabeça. - Isso, assim. - Mas que manobra! - Não é tanto assim! - Cuidado com o câmbio! - Sim, estou vendo o câmbio! Precisa ter cuidado com o câmbio! - Espere. Isso. - Tenha cuidado. Assim. - E agora o banco baixo... - Ai, o volante. - que foi feito de propósito. - Ai! Eu estou com medo. Ai, o câmbio. - O que é isso! Medo de quê? - Sim, claro! Olhe, olhe. Só este braço aqui... - Mas eu tenho vergonha! - De quê? O câmbio! - A mão. - Onde, a mão? - Ai! - Tire a mãozinha. Tire, tire... Ai, ah! Ai! Está me machucando! Não! Não é nada! O que quer que seja? - Eu lhe fiz alguma coisa? - Sim, mal. Não. Não lhe fiz nada. Ai, espere. Agora levante a perna. - Não consigo me mexer. - Com calma. - Com calma. - Para onde vou? - Espere, espere. - Onde me coloco? Espere. - Isso, a perna. - A perna, sim. A perna! Desculpe. Vá por mim, que tenho mais experiência! Ponha aí. Onde? Onde coloco a perna? - O pé. Olhe, o pé. - Aqui! - Se esticar o pé... - Não puxe! Não, desculpe, eu não caibo. Tem o volante. E aqui o câmbio. Isso aí! Que problema é esse? Venha aqui. Venha aqui. Passe para lá. Passe para lá. - Como? - Passe o outro pé. - Já está. - Apoie-o aí. O cabelo, o cabelo. O cabelo. O cabelo. - O cabelo. Ai! - Bem... tinha os cabelos na boca. Estou com muito frio! Que frio. Ah! Como estou contente! Acabou. Já acabou. Já acabou. Acabou. Bonito. Já tenho faz um ano, mas continuo babando. Não há nada a dizer. Um carro perfeito. Você não pode imaginar o favor que me fez porque, confidencialmente, com aquela vadia, não tenho mais vontade. Então, pensei, será possivel que vou acabar como o Militina? Tinha culpado a fábrica, todo o dia lá, pedalando! Quer dizer... mas como? Com 31 anos! Eu não senti nada. Como, não sentiu nada? Eu só sei que me dói. E agora? Agora o quê? - Mas isso é amor? - Amor. Amor. O amor se faz. E quando está feito, está feito. E depois voltamos a ser nós mesmos. Como os animais. Como os animais. Como os animais. Eu tenho pés? Mãos? Sim. Um pinto? Então, como os animais. Como os animais. A coisa faz sentido. E quando está feito... quando está feito, está feito. Vá se danar! Leve-me para casa que tenho de me lavar. As mulheres, na primeira vez, não sentem nada. Sentem aos 30 anos. Não precisa insultar! Deveria me pagar pela transa que tivemos! Quer o quê? A realidade é a realidade. Não tem muito mais. Companheiros operários! A assembleia decidiu 2 horas de greve para a regulamentação do sistema. Os três sindicatos unidos pedem que não aceitem provocações! Trabalhadores! Duas horas de greve não bastam para resolver - nosso problema de trabalho! - Venham! Trabalhadores! Não se deixem enganar! Não, não, não! Chega de provocações! - Para quê tantos policiais? - Calma! Calma! É uma greve pacífica de apenas 2 horas! Temos de garantir a liberdade de trabalho! - Então por que estão aqui? - Companheiros operários! Não aceitem provocações! Calma! Nem da polícia, nem por instigação dos extremistas! Os patrões convocaram a polícia da classe porque querem continuar a nos explorar! Temos de lutar, unidos contra a exploração dos patrões! Operários! Sigam o exemplo de seus companheiros que estão aqui conosco! Duas horas de greve não servem para nada! É preferível vadiar de dia e de noite que trabalhar nos banhos! Não quero arriscar a vida por 6 mil liras por mês! Quais são suas intenções? Hoje não entra ninguém. Nem mesmo os dirigentes. Mas a polícia está aqui! O que podemos fazer? A polícia vem sempre. E quando não está, sempre tem alguém vendido que a chama. Claro! A fábrica funciona se nós estivermos lá dentro. Mas se nós ficamos aqui fora, os dirigentes vão fazer o quê, lá dentro? Sim! Está bem. Mas para nós ainda não chegou o momento, onde quer que seja, de provocar um choque! Para vocês, nunca chega o momento do choque! Nem contra os patrões, nem contra a polícia! Eu ainda não entendi você. Ainda não entendi. Nós continuaremos a fazer 2 horas de greve por dia até obtermos nossas reivindicações, está claro? Sábado, na assembleia, decidimos 2 horas, - não a revolução, 2 horas de greve! - Mas você está com quem? - Eu estou com eles! - Calma! Calma! Calma! Hoje os dirigentes não entram! Vamos. Formem os piquetes aqui na frente! Formem os piquetes aqui na frente! Companheiros a serviço da ordem, a seus postos! Camaradas operários! O comitê operários-estudantes chama-os à luta pela abolição do sistema! Ninguém pode entrar na fábrica! Nem os dirigentes! Fora! Fora! Fiquem no frio conosco! Esses dirigentes que organizam cientificamente - sua exploração! - Companheiros operários! Os piquetes são a força da classe operária! A expressão da disciplina de classe! Todos devem ser piquetes! Os fura-greves têm de esborrachar o focinho contra a força da unidade sindical! Deixem que saiam de seus carros! Abram! Abram! Abram! Afastem-se! Abram passagem! Deixem que os reconheçamos! Que mostrem suas caras! Minha nossa! Como vamos sair? Eu odeio violência! Operários unidos! Não vamos deixar ninguém entrar! Aonde vai? Aonde vai? É perigoso! Desça! Desça, almofadinha! Isso, desça! - Vou arrancar sua orelha! - Não! Vou arrancar sua orelha. O que vai fazer? - O que vai fazer lá dentro? - Não! - O que vai fazer lá dentro? - A orelha, não! O que vai fazer lá dentro? O que vai fazer lá dentro? Dê-me o microfone. Fale! Diga a todos! - O que vai fazer lá dentro? - Não vou! - Como não vai? - Lá dentro. Não vai lá dentro? Então, fique aqui. Fique aqui! Fica conosco! Fique conosco. Não vai entrar. Não vai entrar, fica conosco. Fique aqui. Então vamos levantá-lo! Vamos mostrá-lo! Que os outros o vejam! Que os outros o vejam! Para trás! Para trás! Para trás! Para trás! Para trás! Calma! Fiquem calmos! Digo isso por vocês! Calma! Calma! Bom dia, engenheiro. Há uma certa confusão por aqui. Mas não se preocupe, é uma pequena greve dos operários, mas pode prosseguir tranquilamente, que nós garantimos. Por favor! Engenheiro! Engenheiro! Não faça isso! Socorro! Socorro! Assassino! Parem o carro! Não o deixem entrar! Venha para fora! Para fora! Tirem-no daí! Vamos! Para fora! - Lulu! - Corra, almofadinha! Sou empregado! Sou um fura-greve! Não tenho nada com isso! Estou com vocês! - Quem é? - Sou eu. - Está sozinha? - Claro, com quem estaria? Pegue os pacotes. Venha para dentro, venha. Levou outra surra? Venha. Esta é a minha esposa. Trabalha num salão de cabeleireiro. Estes são os companheiros. São o quê? Estudantes! Artur! Deixe-o! Assim vai aprender alguma coisa. - Ele também é estudante. - Artur! Fora! - Fizemos uma corrida! - A casa cheia de estranhos! Vai sumir alguma coisa, já sei! - Isso! O alfinete do cachorro! - Pelo menos vemos alguém. Sim! Que caras bonitas estamos vendo! Se ouvisse como falam! Não se entende nada. Está faltando o alfinete do cachorro. - Que alfinete? - O do cachorro! Está ali. São foragidos. Você trouxe os barbudos para casa, para não ficar sozinho comigo. Não vamos nos apresentar. Não vamos nos apresentar! E tire isso da cabeça! Venha ficar conosco. - Quem é? - Sou eu. Entrem. Ei! - Estamos com uma fome! - Olá! Olá! O engenheiro teve um colapso e levaram-no ao hospital. Está em todos os jornais! Na seção política, é claro! Onde fica a cozinha? Oito feridos entre as forças da ordem. Entre nós, 20 machucados. Ela fez um sanduíche! Você foi fotografado! Mesmo no meio dos policiais. O que dizem na cidade? Os revisionistas estão isolados! Batidos! - Agora... - Fique quieta. Esqueci-me de lhe dizer que os foragidos ficarão aqui 2 ou 3 noites. - Enquadramento! - Sim! Venha para cá. É a TV. - Tem ovos? - Não, não tenho ovos. O conceito é correto. A briga chegou à unidade. Se tivéssemos um forte partido revolucionário, chegaríamos à luta decisiva em poucos meses. Os operários estão prontos para o poder! Este sistema já era! - Os operários! Os operários! - Ouviu isso? Este aqui! Este aqui é um incapaz! Eu conheço os operários, muito mais que o comunismo! Ouça! Vá ao vizinho pedir emprestados dois ovos. Seja gentil. Não! Vá você pegar seus ovos! Esse é seu comunismo. - Mas o que o comunismo tem a ver? - Tem sim. Porque depois farão assim. - Os ovos! - Mas quando vão a Roma falar com o governo, o que é que vocês fazem? Fazem o quê? Botamos para fora todos os patrões! É lógico! Mas e você, sem patrão, o que seria? Seria um morto de fome! No entanto, olhe só, nos deram tudo! E seu futuro seria seguro, com os patrões! O que está dizendo? Do que está falando? Deixe-a falar! Ela tem a fotografia do Agnelli, em casa! - Fale. - Ouçamos o que tem a dizer! Por que não fala? Agora não posso nem falar? Tem liberdade de expressão. Isso! Seu comunismo! Sua liberdade! Eu falo mesmo porque nunca me tornarei comunista! Nunca! Porque sou pela liberdade, entendeu? E gosto de casacos de pele! Sim, gosto de casacos de pele! E um dia terei um porque mereço! Entendeu? Porque eu trabalho! Trabalho desde os 12 anos, entendeu? E eu mereço! Sou gente! - Pobrezinha! - Artur! Artur, vá com a mamãe! E também ganhará um casaquinho de peles! O Agnelli lhe dará um casaco de pele. Pôs para fora, mesmo! Coitadinha! Para dizer a verdade, não é nada demais! É a prova do que acontece! São mesmo as contradições que explodem neste tipo de família. O proletário médio é explorado na fábrica mas pauta-se pelos exemplos que lhe são mostrados pela televisão. - E pelos jornais... - Claro! Vive como pobre, como miserável, mas sempre imitando o seu explorador. - Mamãe, por que vamos embora? - Porque sim. O que pretende? O que pretende, agora? - Não, deixe isso aí. - Deixe-me em paz. Ponha isso no lugar. Ponha isso no lugar! É assim que me recompensa? Eu, que lhe perdoei tantas vezes? Essas são outras coisas! Ouça, vou lhe dar um casaco de peles! O abrigo, Artur. - Chega! - Não disse... Olhe que eu não disse uma palavra! Lembre-se! Diga à mamãe! O que eu disse esta noite? O que eu disse? - Vamos! - Disse alguma coisa? Artur, vamos embora! Chega! Não aguento mais! - Ouça. - Artur, vamos embora. - Fique comigo. - Vamos embora! Os estudantes também estão. - Ele não é seu pai! - O garoto, não! - Cretino! - O garoto, não! O garoto, o garoto... Mas que comédia! Hipócritas! Vá! Vá com a mamãe. Já deram muito espetáculo aqui dentro. Está chorando por quê? Ele finge gostar de você! Já não se lembra dos tapas que lhe deu? Acabe com isso! - E se ela chamar a polícia? - Isso é ridículo! Ela não vai chamar ninguém! Olhe, não vai chamar ninguém! Para mim, ela foi chamar a polícia. Não! Vota na Democracia Cristã, mas é boa! Ouça, diga-lhe que a conheço. Não acham que a conheço? Por favor! Vamos! São 7h45! Comecem a trabalhar tranquilamente! Mas lembrem-se de ficar atentos às provocações! Não façam o jogo dos patrões! Foi convocada a assembleia dos operários no refeitório, com a presença dos representantes dos três sindicatos. Obrigado! Cuidado com as provocações! Não aceitem as chantagens dos sindicatos! Os sindicatos são os servos, os lacaios dos patrões! São reformistas! À violência dos patrões, respondam com a violência revolucionária! Sabotem a produção! Recusem o trabalho! Operários! Não deixem... Não, Massa! Não pode entrar. - Como não posso entrar? - Espere um momento. Como não posso entrar? - Temos uma carta para você! - Que carta? - Aqui está a carta. - Mas por que não posso entrar? É uma carta para você. Não me deixam entrar! Agora vamos convocar a assembleia! É isso! Viram o que acontece com o seu otimismo? Este é o resultado de suas ações provocatórias! Quem se prejudica são os pais de família! - Vão embora! - Chega! Não vou fazer nada! Não vou fazer nada, sosseguem. Passe-me isso! - Viram? Perdi o trabalho! - Assembleia! No início, ameaçam com o carro! Depois despedem! Viram como é? Querem-nos mortos! Façam greve! Façam greve! Operários! Companheiros! Façam greve! Assembleia! Perdi o trabalho! Vão pagar por essa! Vamos para a assembleia! E um operário como eu, para onde vai? Para onde vou? Para onde vamos nós? Vamos para a escola? Vamos ao teatro? Para o cemitério? Tomar no traseiro? Voltar para a mamãe? Para onde vamos? Para onde vamos? Para onde vamos? Onde? Onde? Onde está o baixinho com a barba? - No Liceu Pisacane. - Como, no Pisacane? Eu perdi o trabalho. Lulu! Lulu! Mas como pôde? Vamos! Deu-lhe um nó na cabeça! Como pôde? E você era o xodó do engenheiro! Ficou maluco? Desça! Desça! Fique calmo! Calmo, Lulu! Vá se consultar, na cidade há bons médicos! - Vá para a cama dormir! - Vá! Vá, Lulu! Massa! Massa! Ouça. A assembleia é longa e difícil. - Ouça. - Diga a verdade. - Não perca a coragem! - Mas vão fazer greve? Na saída, está bem? Espere-me na saída. Fique tranquilo. Na saída, Massa! Na saída! Como é o resultado? É bom? - Como é? - Ouça, Lulu! A assembleia rejeitou a proposta de greve por tempo indeterminado. - Agora... - Rejeitou a proposta? tentaremos outra vez, ouviremos os trabalhadores. Pode ser que desta vez eles se convençam. A assembleia decidiu não se desviar do plano inicial, entende? - Você os conhece! - Sabia que seria assim. Aqui a questão é regulamentar o trabalho porque aqui não se trata de fazer a revolução, não se trata de nos colocarmos em evidência! E toda a vez que fazemos greve, não é só o patrão que perde mas nós também, que deixamos de ganhar! Ganhar! Ganhar! Quanto? As 10 mil liras para cuidar do garoto? Agora eu lhe dou este pró-forma! E entrego-lhe também esta carta! Que o Armandinho a emoldure! Eles rejeitaram! E não quero esse dinheiro! É dele. Vá entregá-lo! Lulu! Lulu, garanto que os sindicatos o defenderão até ao fim. - O que me importa? - Tenha cuidado! Ajude-nos também. - Procure entender. - O que me importa? O isolamento é terrível, Lulu. Tenha cuidado. Agora preciso voltar lá dentro. Fique tranquilo. Este é um liceu ocupado! Neste momento, os estudantes discutem os problemas essenciais da sua vida. Discutem política! Pede-se aos pais que queiram se afastar! Que voltem para suas casas! Que vejam televisão! - Que briguem... - Com licença! Com licença. Dá licença? Ele me conhece. Sou da BAN. Perdi o trabalho, perdi o dedo, está lembrado? - Para onde vou? - Lá pro fundo. Por que ele pode passar? Por que ele sim? - Vocês também são estudantes? - Somos emigrantes sicilianos. Ei! Sou o Lulu. Sou eu. Sou eu. - Soube que perdi o trabalho? - Já sei, já sei. Já sabe e está aqui dormindo. Mas esta manhã poderia ter ido lá. Não podemos estar em todos os lugares. - Nem mesmo você? - Eu faço o que posso. Ainda somos poucos. Ontem estávamos na oficina. Hoje nas escolas e amanhã talvez... No manicômio com o Militina. Nós procuramos, com o nosso trabalho, fazer aflorar as contradições para mudar este sistema de vida. Vocês conseguiram me mudar e eu perdi o trabalho. É que quando se obedece ao patrão, ninguém nos toca, não é? Depois, a certa altura, tomamos consciência e então nos estrepamos. Mas você já deveria saber disso, Lulu. Não é uma novidade. Não sou burro. Também sei como estão as coisas. Eu sei. Mas agora, venham com esses estudantes até a fábrica! Estamos divididos. E somos poucos. Poucos. Eu preciso comer! Comer, entendeu? Deveria saber que sempre se acha algo para comer. Eu não quero esmolas. Como não dito. Por que eu... Pedalar! Indiferente! O seu caso é isolado, pessoal, e não é isso que nos interessa. Nós queremos um discurso de classe. Vocês, um discurso pessoal, não é? Quer? Quer o meu? Não estou nem aí com o discurso pessoal. Olhe para mim. Tenho 30 anos. Veja como estou acabado! - Estou perdendo a validade. - Não grite. Fiz apenas três exames. Sou doente de piorreia. E eu tive uma intoxicação por tinta, está bem? E eu tenho piorreia, está bem? - Massa, para onde vai? - De onde vêm vocês dois? Estão esperando você, não sabe? Baixe as mãos. O que devo fazer agora? Quero lá saber o que deve fazer! O que quiser. Há milhares de modos de vida. Tente mudar! Tente mudar e não viver como de costume. Fique aqui conosco. Agora está desocupado, pode fazer o que quiser. E sempre se acha qualquer coisa para comer. Se quiser, poderá até militar em tempo integral. Ouça, não se faça de engraçado. Abaixe as mãos. - Massa, vai ser readmitido. - Olhe, eu já... já tomei minhas decisões. Sei o que devo fazer por mim próprio. Até mais! Muitas felicidades. - Massa, por que não fica aqui? - Você é estudante? Sim, é verdade, sou estudante à noite. - Você é estudante? - Trabalho e pago meus estudos. - Um policial! - Não diga bobagens! - E você também é estudante? - Quem, eu? - Estudante? - Por quê? - Ouça... - Deixe os outros irem embora. - Por que não fica? - Deixe os outros irem embora. Precisa ficar como estudante. O movimento estudantil existe. Um operário tem de pensar por si. Antes, vocês não sabiam o que fazer. Não pode ir embora assim. Para que o recontratem, vamos ter de lutar. Mas por que vai assim? Não se isole! Ficar aqui é melhor para você! É melhor! Vá para o diabo! Artur! Artur! Olá, Lulu! Parecem pequenos operários. O que está fazendo, aqui a esta hora? Nada. Estou aqui. Vim ver você. Fico contente. A mamãe nunca vem me pegar na escola. Vou sozinho para casa. E eu vim ver você. Pense. Seu filho Armando faz o quê? Está com você? Não o vejo faz tempo. Um dia, iremos dar uma volta juntos. Vamos ver se a mamãe vai deixar. Ela tem um gênio! Agora, o que a sua mãe fala de mim? Diz sempre: "Que desgraçado!" E depois chora. Mas por que está sempre gritando? Você gosta de ficar comigo? Sim. Parecem pequenos operários. Para que lado vai? Para lá. Eu vou para este. Tchau. Até mais! Tchau. A tempestade que caiu sobre o Atlântico desloca-se lentamente para o Cazaquistão. Chove xixi há 2 dias na Lombardia. -100 mortos e 10 desaparecidos. - Quem? Pieri, Burnic, Facchetti, Suarez, Tamarildo, Lodetti. Franzindo as sobrancelhas... vem à cabeça um estratagema. Se quer ficar louco, creia em mim, precisa voltar para a fábrica. Eu fiquei louco na fábrica. Abaixo este muro! O muro! O muro! Abaixo, abaixo. Abaixo o muro. Abaixo! Abaixo! Hein? Abaixo. Abaixo. Abaixo este muro! Abaixo este muro! Abaixo. Eu trouxe o que pediu. Pegue. O muro. O muro, o muro. O muro. - Lulu! - Lulu! Massa, obtivemos a primeira vitória. O engenheiro foi transferido! - Lulu! - Lulu! Lulu! Sabemos que está aí! Saia! Abra! Vamos, Lulu! O que está fazendo aí sozinho? Venha! Volte para a fábrica! Senão faz o jogo dos pelegos! Os companheiros precisam de você! Massa, você virou um simbolo! Precisa vir! Todos os companheiros esperam você! Sabe que 30% dos empregados fizeram greve conosco hoje? Precisa se mostrar! Nos portões! Lulu, precisa participar da luta se quer ser readmitido! Saia daí! Vendo tudo. Liquidação. Despesa. Emigrou. Emigrou. Emigrou. Casal de namorados, 8.500. 8.500 mal gastos, dois dias de trabalho. Mesinha dourada com ilustração estrangeira nos azulejos. 30 horas de trabalho. 5.000 liras. 4 palhaços. 10 horas. 24.000. Bonecos, 5.000. Rádio-livro "Os Noivos". 10.000 na Suíça, 15.000 em Milão e me pegam aqui! Jarra de cristal, amêndoas de plástico. 2 mil liras. Isto aqui dá até azar. Vários animais. Prêmios. Tudo no ativo. Se pego quem teve a ideia de fazer essas coisas... "Um mago na cozinha", abre as conservas, faz a maionese, pega as facas. UM MAGO NA COZINHA "Momento mágico". "A magia da luz da vela, a vida à luz da vela... com velas acessas. " Vá se danar! Se pego aquele que teve a ideia... que teve a ideia de fazer estas coisas... Sinto até raiva. 4 despertadores! Tenho 4 despertadores! Por que será? É um museu. Um museu. Todo mês promissórias, recordações. Isso, só falta eu aí dentro! Aqui, puta vida! Puta vida! Procure, procure! Aqui estão. Um belo bloco. Bloco. Acionista. Ações. Ações. Talvez deva me colocar aí dentro. Aí embaixo. Para dentro! Para dentro! O que é isso, está controlando? Controle. Está caindo? Passando-se por fantasma para me amedrontar? Quer me amedrontar? Está controlando o quê? Está controlando o quê? Paspalho! Está controlando o quê? E aí? Isso! Isso! Quer controlar! Ele quer controlar! Quer controlar o quê? Olhe, mamãe, o pato explodiu! O muro. O muro. Lulu. Artur. O muro. O muro. - Quem é? - Somos nós. Abra! - O papai está? - Sim, está. Ótimo, que bom. Diga-lhe que é importante. - Mas quem é? - Um senhor. - Não. Não, não! - Lulu! Lulu! Lulu, tem gente. É um senhor que quer falar com você. - Por que foi abrir? - Não! Disse que é importante. - Quem é? - Quem é? - São 2 ou 3. - Venham para cá! - Desculpem a invasão. - Papai, vista isto. Quem é? - O que é? - Venham para a sala que o Lulu está chegando. Obrigado. Lulu. Conseguimos. Sabe o que conseguimos? Você foi readmitido. Vai voltar ao trabalho. Sim. Assinamos esta noite, às 2h00. Conseguimos tudo! Até melhores ganhos! Sua contribuição foi decisiva. Não está contente? - Estou contente. - Querem uma pinga? Eu lhe disse que iríamos conseguir. Você disse, sim. Este é o resultado da unidade sindical. Pense que é a primeira vez, na região, que readmitem um operário demitido por motivos políticos. É importante, não? É a primeira vez? E o Militina? Quem é o Militina? Não o readmitiram? Não o readmitiram? Essa era outra época. Hoje somos mais fortes, mais conscientes. Hoje, têm medo de nós, Lulu. Eles têm medo de nós. Lulu, ouviu? Está contente? Eu sei. Entre você também. Venha, Bassi. Querem um café? Então, vou fazer café. Saúde. Saúde! - É verdade? - Claro. Companheiros operários! Alcançamos a vitória sobre os dois objetivos que nos havíamos proposto. A readmissão do Massa e a regulamentação do sistema. Mas a luta não acabou! Continua nas seções! Controlem seus tempos de trabalho! - Sua luta... - ... na escuridão! Hoje, após 8 horas de trabalhos forçados, sairão e estará escuro novamente! O sol para vocês... - Está contente? - Sim, estou contente. - Está contente, mesmo? - Sim, estou contente! ...e o patrão dará autorização! Operários, sejam livres! O que conseguiram hoje não é devido aos pelegos, mas à sua vontade de luta! Lutem, unidos a nós, estudantes! Nosso objetivo imediato é conseguir tudo e já! Tudo e já! Trabalhem, escravos! Trabalhem, escravos! Trabalhem! Trabalhem escravos! Escravos mesmo! Mas foram ruins! Colocaram vocês na cadeia de montagem! É o destino de um homem! Estava atrás, sonhando... Está ouvindo? Estou falando com você! - O quê? - Estava atrás, sonhando. - Sonhando com o quê? - Com um muro! - Massa! - Sonhou? O que estão dizendo? Não entendo! Não ouço! - Como? - O Massa sonhou com um muro! Sonhou com um muro! Massa, com um muro? Estava lá sonhando com um muro, tinha morrido! Tinha morrido! O Massa sonhou que tinha morrido! Quem morreu? Estava morto e sepultado e, então, surge o Militina. O Massa morreu no sonho! O Militina? - Ah! O Militina diz... - Estava na hora! Era de Nápoles, não? - Diz que morreu! - Quem, o Militina? - O Militina morreu! - Morreu no manicômio! Não! Não morreu no manicômio! O Militina grita, diz... O Militina gritava! diz: arrebentemos tudo e vamos entrar! Vamos entrar? Sim! Arrebentemos tudo e vamos ocupar o paraíso! Onde? - Onde? - Onde? Não sei! Atrás do muro, do outro lado do paraíso! Diz: arrebentemos tudo e vamos entrar. Aí... eu não digo nada. Vá saber! Eu não digo nada e aí é uma visão impressionante! Uma visão impressionante! Imagine que um tinha a cabeça de um lado e o corpo a 10 metros de distância. Uma visão impressionante! Que eu lembro bem! Abaixo com este muro! Abaixo com este muro! Abaixo com este muro! E o muro caiu! - Como pôde ter caído? - Asseguro que caiu! Sim, está bem. Mas o que havia? O que havia? Atrás desse muro? Tinha nevoeiro. O que é isso de muro e nevoeiro? Sim, mas o que havia nesse nevoeiro? Antes de tudo, depois quando olhei, vi surgir... o Militina. - Quem? - O Militina! - Quem é o Militina? - O que estava no manicômio! Depois vi um trabalhador braçal, vi um cara sem dedo e perguntei, "Mas quem é esse aí?" E penso, "Este sou eu!" Vaca porca! Depois, um a um, apareceram todos vocês! Eu também? Estávamos todos nós! Estávamos todos nós! No muro, na poeira, no nevoeiro, estávamos todos nós! - Mas o que significa? - O que significa... 3, 6, 42 e perde um século! - Ouça: 6, 7, 42! - O quê? 6, 7, 42? Esse aí é lento para entender! Que significa, que significa... Significa que havendo um muro para derrubar, ele tem de ser derrubado. O que significa? Só faltava! Que significa... Mas é lento esse aí! Que significa... Eu entendi, Massa! Sou eu que ainda não entendi quem você é, o que quer. Eu quero derrubar o muro! Este sou eu! - E eu estava? - Acho que sim! - Estava? - Sim! E onde estava? Onde estava? No nevoeiro? Estava no nevoeiro, no paraíso! Por que tem nevoeiro no paraíso? Não sei se você estava! Não sonho de empreitada! Vamos! O que me importa isso? Sonhe você, então! Lembra-se de mim? Chega! Nem mesmo eu estava! Ninguém estava! Eu estava atrás do muro? Não tinha ninguém! Eu não disse nada! A CLASSE OPERÁRIA VAI AO PARAÍSO

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